31 Jan, 2009
Homofobia não!
De Belém
Ana Bittencourt e Diego Santos
Colaborou Gabriel Gonçalves
O Brasil lidera o vergonhoso ranking internacional de crimes por razões homofóbicas. Nos anos mais recentes, a atuação de ONGs e movimentos sociais, principalmente o LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (Sedh), do governo federal, vem buscando modificar esses dados, seja por meio do combate mais acirrado a essa violência, seja para torná-los mais visíveis, buscando conscientizar a sociedade sobre esse problema. Mas ainda estamos longe da solução, pelo menos até agora.
Ontem, sexta, dia 30, foi lançada no campus da Universidade Federal Rural do Pará a campanha “Diga não à homofobia!”. A idéia é apresentar ao governo um abaixo-assinado reivindicando a aprovação do projeto de lei 122/2008, que torna crime a homofobia no Brasil, de autoria da ex-deputada Iara Bernardes (PT-SP), em tramitação no Senado Federal desde 2006. “Homofobia significa qualquer tipo de crime, ódio, discriminação contra homossexuais. Nossa meta é conseguir 1 milhão de assinaturas até outubro de 2009”, explica Júlio Moreira, coordenador técnico do Grupo Arco-Íris, do Rio de Janeiro, que veio à Belém para participar do FSM 2009.
Para o lançamento da campanha, que terá abrangência nacional, e ampliação do número de assinaturas aqui no FSM, foi feita uma articulação com o movimento LGBT local e também com outros movimentos sociais, como o negro e o de mulheres. A assinatura a esse abaixo-assinado está disponível em
Daiana Bárbara veio de Brasília para participar do FSM. Ela participa das organizações Coturno de Vênus e Estruturação, dois movimentos feministas de apoio às mulheres vitimizadas por serem lésbicas. “A violência contra homossexuais em Brasília é assustadora”, afirma, lembrando um caso recente em que um homossexual foi queimado na mesma praça onde o pataxó Galdino dos Santos foi assassinado.
A maranhense Silvia Serrão é ativista do movimento negro e fez questão de participar do lançamento. Para ela, “preconceito não vale nada, o que importa é que todas as pessoas consigam viver com respeito, tolerância e, principalmente, sem violência. ”
Além desse, há outros projetos de lei de benefício à comunidade LGBT em tramitação no Congresso, como o que garante a travestis e transexuais usar seu nome social em seus documentos de identificação ou o projeto de lei que autoriza a união civil entre pessoas do mesmo sexo, de autoria da ex- deputada Martha Suplicy.
Combater o preconceito e a exclusão também são prioridades do movimento: “Temos pesquisas que demonstram que o ambiente escolar é o espaço onde há mais discriminação contra homossexuais, seguido pela família. É preciso dar cada vez visibilidade aos casos de homofobia para termos uma resposta mais eficiente do poder público e da sociedade contra isso. Só nos tornamos sujeitos políticos se nos tornamos visíveis”, defende Júlio.
Aqui no estado do Pará, pelo menos três homossexuais são assassinados diariamente. Para reverter esse cenário foi criada, em 2008, a Casa do Conselho, com quatro núcleos espalhados pelo estado, que reúnem lideranças locais do movimento LGBT para fiscalizar, e tentar evitar, as impunidades sofridas por homossexuais. A iniciativa faz parte do projeto Brasil sem Homofobia, do governo federal.
“Estamos buscando mapear essa violência aqui no estado. Queremos saber onde e quando esses crimes ocorrem para darmos o devido encaminhamento às vítimas e tentarmos evitá-los”, explica Paulo Lessa, representante da organização Apolo, Grupo pela Livre Orientação Sexual e integrante da coordenação do movimento LGBT do estado do Pará.
Projeto de lei estadual, da ex-deputada Sandra Batista, em tramitação na Assembléia Legislativa, prevê a institucionalização do 28 de junho como Dia do Orgulho da Visibilidade LGBT no estado. Até 2008, nove paradas do orgulho gay foram realizadas no estado.
Pressionar parlamentares e representantes do governo para acelerar esses processos de aprovação e também dar-lhes visibilidade são algumas das demandas trazidas por esse movimento para Belém. A vinda ao Fórum objetiva, ainda, fortalecer o diálogo com outros movimentos com os quais o movimento LGBT não tem se articulado, caso do movimento indígena e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
“Queremos conhecer melhor as lutas deles e gostaríamos que eles acompanhassem as nossas. Fazer essa articulação é papel do Fórum e essa troca é fundamental para, juntos, elaborarmos propostas de políticas públicas para vários setores da sociedade”, completa. Um marco desta edição do FSM foi o encontro entre o movimento LGBT e o movimento feminista no qual foram discutidas propostas de articulação dessas lutas.
A mobilização em Belém não para por aí. No próximo mês, a cidade será palco do III Congresso da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que está sendo organizado pela comunidade LGBT local.