Arquivo de 16 de Janeiro de 2009

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Acampamento da juventude

Da Redação colaborou Diego Santos

Janeiro, fevereiro, verão, férias. Palavras que não saem da cabeça de milhares de jovens de todo o Brasil e do mundo, que aproveitam esse período para conhecer novos lugares em busca de diversão e descanso. De 27 de janeiro a 1º de fevereiro, porém, mais de 20 mil jovens são esperados(as) em um acampamento bem diferente, o Acampamento Intercontinental da Juventude (AIJ), que será realizado durante a 9ª edição do Fórum Social Mundial em Belém do Pará, norte do Brasil.

O acampamento é realizado desde a primeira edição do Fórum Social Mundial, em 2001, e é responsável por abrir espaço para que a juventude dê voz às suas contribuições para a construção de um mundo melhor, como sugere o slogan do evento.

Luan Alves tem 21 anos e é integrante do GT de Comunicação do AIJ. Ele conta que a mobilização já toma conta de todo os estados do país, onde caravanas se organizam para participar do acampamento. “Já sabemos que há grupos vindos de todas as regiões, participando de outros congressos, culminando aqui no FSM”. Para ele, que participa pela primeira vez do Fórum, o evento é uma oportunidade única para a sua cidade, Belém, ter visibilidade mundial na organização de eventos de grande porte.

Kleber Albuquerque tem 25 anos. Vai pela primeira vez a uma edição do FSM. Sempre acompanhou de longe outras edições e tinha enorme desejo de participar. Este ano, deu para guardar uma “grana” e vai para Belém. O que o motiva? “O próprio slogan do Fórum me motiva, saber que posso contribuir politicamente para um outro mundo possível é muito bom”, responde o estudante de Turismo e Administração pública.

De acordo com o GT de comunicação do AIJ, haverá espaço na programação para grupos que não conseguiram inscrever suas atividades culturais a tempo. “Esses grupos terão a oportunidade de adquirir visibilidade e usufruir da estrutura de palco e som que o acampamento oferece”, diz Luan.

O acampamento prevê ainda uma programação bem especial que vai desde oficinas, seminários e exposições até shows e outros eventos. Algumas bandas bem conhecidas do cenário musical do Norte marcarão presença nos dias do evento.

Quanto à estrutura do acampamento, há espaço suficiente na Universidade Federal Rural do Pará para camping e todas as atividades acontecerão por lá. As 15 tendas armadas para o evento abrigarão as atividades. “É importante lembrar que as atividades acompanham os eixos do FSM e os participantes têm livre acesso aos eventos do Fórum”, ressalta Luan.

Quem estiver preocupado com as chuvas de Belém pode ficar tranquilo. Segundo Luan, “há um esforço da organização para garantir o conforto dos participantes e impedir que as dependências fiquem alagadas”, garante. Ele lembra também da importância de levar repelente, filtro solar e, claro, a barraca.

Para mais informações: www.acampamentodajuventude.wordpress.com.

Escambo organizado

Com todas as facilidades de comunicação da atualidade, a novidade deste Fórum Social Mundial vem da comunidade do evento no Orkut, site de relacionamentos. A organização de um escambo organizado está mobilizando participantes da comunidade.

Pessoas de todos os estados combinam o que levar como lembrança de seu estado para ter em troca presentes de outras partes do país e do mundo. Mayra Carvalho tem 28 anos e é estudante de serviço social. Vai levar para troca objetos autênticos do Piauí: “ artesanato, cachaças e ainda CD de uma cantora famosa da região”, conta.

O autor da idéia, Kleber Albuquerque, não imaginava que a iniciativa fosse dar tão certo. “No início, o tópico demorou a ter respostas, mas agora é um sucesso e já temos até que fazer lista para não esquecer ninguém”, garante. Para ele, o escambo é importante pois reflete o clima do próprio Fórum, “proporcionando as trocas culturais e integrando povos”.

Para participar do escambo basta acessar a comunidade do Orkut e combinar o quer ganhar ou levar.

Publicado em 16/01/2009 no Portal Ibase.

Cândido Grzybowski*

As cenas de mais uma guerra no conturbado território são chocantes. Elas invadem o nosso cotidiano e não dá para ficar indiferente. A emoção diante do sofrimento de tanta gente inocente não pode ser contida. Aquelas crianças que tiveram o direito de viver destruído tão cedo e deste modo! Mas o que fazer? Esquecer e ir levando a vida? Isto não é possível em um mundo onde, por consciência, visão e pelos meios que a tecnologia nos dá, começamos a sentir que somos, em nossa diversidade e diferença, parte da mesma humanidade. Sim, mesmo distantes geograficamente e sem sermos obrigados a buscar refúgio em Israel ou na Palestina, as bombas nos concernem e temos o dever cidadão de encará-las para reverter tal situação.

O drama dos povos judeu e palestino, com toda a sua tragédia, sintetiza de forma exemplar o que povos e grupos humanos enfrentam pelo mundo afora: como compartir o bem comum maior, o território e seus recursos naturais, de forma a que todos os seres humanos tenham lugar. Sempre que prevalece a lógica de conquista pelos mais fortes, de uso exclusivo de territórios para si, de acesso e uso de recursos finitos só para uns e de exclusão social de todos os outros, gera-se injustiça, destruição e morte. Isto marca a história da humanidade. Marcou a violenta conquista e colonização a partir do século 16 e a própria invenção do racismo que nos assola até hoje. Ainda hoje é este o sentido da maior parte das lutas, seja na nossa vasta Amazônia, seja em cidades como Rio, Johanesburgo, Mumbai, Paris ou Nova Orleans, não importa, seja no Líbano, Iraque, Afeganistão, Bolívia, Chechênia, antiga Iugoslávia, Ruanda, Somália.

De uma forma ou de outra, as condições naturais de viver e o direito à identidade sociocultural e ao reconhecimento político estão no centro de todas as lutas e disputas. Entre os fatores de maior dramaticidade da guerra entre Israel e Palestina estão a sua longa duração; a trágica história do povo judeu, culminando com o Holocausto na II Guerra Mundial; e a heroica resistência do povo palestino, a quem se nega o direito de ter direitos também.

A guerra, o terrorismo e a intolerância de parte a parte têm muito a ver com a liderança atual de Israel e com o fundamentalista Hamas. Os erros políticos acumulados com o fracasso em reconhecer um Estado Palestino devem ser creditados aos dois lados. Mas convenhamos, o cinismo e a lógica do mais forte que tomou conta da agenda política mundial, no rastro da globalização comandada por grandes corporações e sob a égide militar e guerreira dos Estados Unidos, são alimentados por um clima que extrapola a região. A arquitetura política mundial de fragilização do multilateralismo, com lideranças políticas fracas e confusas como Bush, dão lugar ao que temos neste início do século 21: o predomínio de uma lógica de terror e guerra. Neste quadro, será que nós mesmos não damos as costas ao drama de outros povos?

Como cidadão do planeta Terra, ativamente engajado no processo Fórum Social Mundial, afirmo e reafirmo que a situação não precisa ser assim, não pode continuar assim. A hora é de mudar. As múltiplas crises enfrentadas pela globalização trazem sofrimento, mas desestabilizam os pilares e, sobretudo, os valores do individualismo, do cinismo, da intolerância, do fundament
alismo, do terror e da guerra. A hora é de agir. Precisamos aproveitar o momento do FSM, em Belém, e a novidade de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos para cobrar de nossos dirigentes políticos e das instituições multilaterais um compromisso mais claro com a paz. Precisamos parar os falcões em Israel e na Palestina. As diferenças existem, mas, em vez de gerar guerra e destruição, podem ser politicamente transformadas em forças de construção de um mundo mais justo, humano, sustentável e democrático, onde todos os seres humanos tenham direito de viver.

*Sociólogo, diretor do Ibase.

Publicado em 16/1/2009 no Portal Ibase.