Arquivo de 23 de Janeiro de 2009

Cândido Grzybowski*

Obama tomou posse como presidente dos EUA há exatamente uma semana do Fórum Social Mundial 2009, em Belém. Olho este fato histórico com a perspectiva de brasileiro, de dirigente de uma organização de cidadania ativa e de pessoa engajada no processo FSM. Isto num contexto de plena crise mundial e de desafio de criar novas bases de organização econômica e de poder.

Um primeiro fato a registrar é a grande esperança de mudança que Obama representa para os(as) próprios(as) norteamericanos(as). Tendo gerado um verdadeiro movimento cidadão durante o processo eleitoral, Obama simboliza a possibilidade de revitalização democrática da sociedade. Ela foi agastada pela hegemonia conservadora, com seu exacerbado individualismo e desprezo dos valores públicos e da política, com seu fundamentalismo religioso e beligerante, de submissão pela força, mesmo ilegal, de adversários(as) e diferentes, de não-respeito ao multilateralismo.

Em tal meio, Obama soube produzir um novo clima político e cultural. O Yes, we can! tornou-se uma expressão cívica de poder e orgulho cidadão da multifacetada sociedade dos EUA. Com base no movimento, Obama conseguiu galvanizar os mais diversos setores, em particular a juventude, e chegar à vitória eleitoral. As expectativas são enormes. A questão é saber se Obama, como a maioria dos governantes, vai se submeter sobretudo à lógica e dinâmica do poder institucionalizado em Washington ou se buscará inspiração e força no movimento que o elegeu. Mais, o movimento vai ser capaz de se manter vivo e pressionar Obama e as poderosas e esclerosadas instituições de poder?

Estas são questões que debateremos no FSM 2009 com os mais de mil ativistas e intelectuais norteamericanos(as) esperados(as). Ainda em julho de 2007, no Fórum Social dos EUA, em Atlanta, o lema foi “Outra América é possível e necessária”. Já era possível ver um outro EUA mostrando a sua vitalidade política. Isto na terra de Martin Luther King, outra referência de Obama.

Obama integra uma sociedade que 50 anos atrás não reconhecia direitos civis iguais para brancos(as) e negros(as). O movimento liderado por Martin Luther King, do final dos anos 1950 aos anos 1960 do século passado, trouxe ao centro do debate democrático a igualdade de direitos na diversidade e, mais, a necessidade dos EUA reconhecerem a sua própria composição diversa como base e patrimônio da nação.

Hoje, num país ainda mais diverso, dado que é um dos principais destinos dos migrantes da globalização, pela primeira vez um negro chega à Presidência. Isto é simbólico para a cidadania e a política nos próprios EUA. Mas vale para todo mundo, especialmente para as pessoas que se identificam com o apelo do FSM em termos de valorização da diversidade sociocultural como base de uma nova cultura política de inclusão universal, sem discriminações ou racismos. Não é por nada que o mundo todo olha para Obama, por fora do sistema elitista dominante, como alguém que chega lá.

Para além destes aspectos que movem mentes e corações, é preciso ver Obama como presidente da, ainda, maior potência econômica e militar do planeta. Na verdade, um grande urso, muito perigoso porque bastante ferido. O furacão da crise está no próprio coração da economia norteamericana. A conjuntura é extremamente difícil, pois com a ruína da economia cassino, é a economia real que aparece totalmente insustentável, produtivista e consumista de recursos naturais e poluidora do meio ambiente, injusta em termos sociais e ambientais. Na frente militar, Obama herda duas desgastantes guerras da era Bush.

Obama e equipe são desafiados a demonstrar muita ousadia e uma radical mudança de rumo. Talvez aí reside o núcleo mais difícil das expectativas com as quais a nova administração deve lidar para não reverter o bom momento político cultural. Aliás, o mundo todo está de olho nos EUA, os líderes políticos das nações poderosas, por estarem perdidos, e a cidadania planetária, por ver uma fresta de oportunidades de mudança pregada e almejada.

Novamente, esta é uma questão vital para o FSM. Anunciamos, desde o auge da globalização do livre mercado, comandada pelas grandes corporações, que “outro mundo é possível”. Contra o pensamento único predominante, nos opomos à absoluta privatização de tudo e propomos uma publicização e repolitização da vida e da economia, com maior poder de regulação dos mercados e das finanças pelos Estados. Defendemos a busca de uma pluralidade de modelos e formas de organização econômica, sustentáveis no acesso e uso dos bens comuns naturais, diversos como os territórios e as culturas que nos dão identidade, participativos e voltados prioritariamente a satisfazer necessidades e desejos de bem viver dos povos, que promovam a justiça social e ambiental. Nos opomos frontalmente à lógica do terror e da guerra e à crescente militarização e violência nas relações, no interior e entre países.

No discurso de posse há sinais de uma nova agenda para o governo dos EUA. O fundamental é reconhecer que uma outra economia, uma outra sociedade e uma outra política norteamericana são uma necessidade para o mundo de hoje. Talvez tenhamos algo a fazer para que isto aconteça: ficar mais atentos(as) e prestar solidariedade ao poderoso movimento cidadão que gerou Obama. A administração em Washington, antes que engula Obama, precisa saber que também estamos atentos(as) e vamos cobrar.

*Sociólogo, diretor do Ibase.

Publicado em 23/01/2009 no Portal Ibase.