Arquivo de 28 de Janeiro de 2009

De Belém
Ana Bittencourt

Há três semanas, está funcionando em Belém o Laboratório de Informação Compartilhada, iniciativa que congrega as principais representações de movimentos sociais e ONGS da Amazônia. Entre várias produções, o Laboratório criou dez documentários sobre os grandes temas que serão destaque neste FSM, e estão disponíveis em vários sites, como Youtube e WSFTV. “Com esse Laboratório, conseguimos trabalhar a informação de outra forma, produzindo uma contra-informação para tentar desconstruir o que vem sendo veiculado sobre o FSM, erroneamente, pelos meios de comunicação de massa”, explica a coordenadora do Centro de Estudos e Práticas de Educação Popular (Cepepo), Ilma Bittencourt, que integra o Grupo de Facilitação e o Grupo de Comunicação do FSM aqui em Belém.

Ibase – Qual foi o papel do Cepepo na organização do FSM 2009?

Ilma – Quando soubemos que o Fórum seria em Belém, a grande dificuldade foi articular todas as entidades em torno dessa construção, focando não apenas na questão da organização, mas também da logística. Por isso, organizamos, em 2007, o Grupo de Facilitação, formado por diversas entidades nacionais e amazônicas, e vários Grupos de Trabalho: de Economia Solidária, Juventude, Interreligioso, Cultura, Metodologia, Mobilização e de Comunicação, do qual o Cepepo ficou responsável.

Ibase – Quem integra o GT de Comunicação e como funciona?

Ilma - Estudantes de Comunicação, jornalistas e representantes de várias organizações da área. Para nós, da Amazônia, a principal necessidade era discutir as novas tecnologias. E também o desafio de pensar a comunicação não como um evento dentro do Fórum, mas como uma forma de fortalecer os movimentos sociais amazônicos, apropriando-se, para isso, dessas novas tecnologias. Aqui na Amazônia, a questão da tecnologia da informação é muito complicada.

Ibase – E qual foi o resultado desse GT?

Ilma – Criamos, na sede do Cepepo, um Laboratório de Informação Compartilhada, que começou a funcionar há três semanas. Integram a iniciativa os mais representativos movimentos sociais da Amazônia, como de indígenas, de jovens, de negros, de mulheres, em defesa da terra. Nosso objetivo é pautar os grandes temas do FSM. O Laboratório ofereceu a esses representantes várias oficinas de capacitação nas novas tecnologias, como produção de vídeo e roteiro para documentários, por exemplo. Produzimos cerca de 10 documentários de curta duração, de 3 a 5 minutos, no máximo. Esse trabalho está disponível na internet, como no Youtube, no site da Ciranda da Informação do FSM e no WSFTV, também vinculado ao Fórum.

Ibase- E qual foi o retorno disso?

Ilma –Tivemos excelente impacto, o que foi uma surpresa, pois até então, a ferramenta Internet era uma estranha para a maioria desses movimentos, era um caminho ainda desconhecido que, principalmente com a ajuda dos jovens, conseguimos trilhar. Isso para nós é uma experiência muito interessante, passamos a compartilhar a comunicação de forma mais ampla. Passamos a interagir com o Laboratório de Conhecimentos Livres, com o Fórum de Rádios Comunitárias, entre outros. São pessoas de outras partes do Brasil e fora dele, que têm muito mais experiência do que nós, da Amazônia.

Ibase – O Cepepo existe desde quando?

Ilma – Desde 1980, nosso trabalho começou associado à luta pela moradia. Prestávamos assessoria aos movimentos sociais contando, para isso, com ferramentas de comunicação, como a fotografia. Foi a partir daí que percebemos a importância da comunicação como forma de ajudar a conscientizar essas pessoas a se enxergarem como protagonistas de suas lutas. Começamos a trabalhar com outras ferramentas, todas ligadas à imagem e ao áudio, como slides, vídeos, mas sempre com a intenção de que os próprios integrantes desses movimentos fossem capacitados para produzir seus materiais. O importante era que eles se apropriassem desse processo de construção, seja elaborar uma entrevista, usar uma câmera, produzir um documentário.

Ibase – Vocês já participaram de outras edições do Fórum? Qual o significado dessa participação para vocês?

Ilma – Não, é a primeira vez. Está sendo um grande ganho, pois o FSM amplia as possibilidades de compartilhar conhecimentos com outros movimentos sociais. É também uma oportunidade de aprofundar os debates sobre temas políticos que, em geral, aqui na Amazônia, não temos como levar adiante, por exemplo, a discussão sobre a TV Digital, sobre a inclusão digital.

Ibase – Qual a avaliação que você faz da cobertura da mídia comercial pré-FSM?

Ilma - Foi muito complicado, tivemos problemas muito sérios. A mídia alternativa é muito necessária e, ao mesmo tempo, infelizmente, não tem muito espaço aqui na Amazônia. A solução é ocuparmos os espaços que a imprensa comercial disponibiliza para nós, o que não é bom. Essa foi uma das principais discussões dentro do GT. Por exemplo, os grandes jornais comercias até vinculavam as matérias que produzíamos sobre o processo preparatório ao FSM, mas embaixo, havia um anúncio enorme da Vale da Rio Doce, empresa responsável pela maior parte da destruição ambiental na região, ou de uma mineradora. Por isso, em algumas situações, tivemos que abrir mão desses espaços, por não ter como conciliar a proposta do Fórum com a postura dos grandes veículos. Por exemplo, conseguimos um excelente espaço em um grande jornal sobre responsabilidade social, podíamos publicar nossas matérias, desde que não assinássemos. Na primeira edição que fizemos, embaixo da matéria sobre o FSM, veio um anúncio enorme sobre um encontro de mineração. Outra questão complicada foi a abordagem das reportagens feitas pela mídia comercial, sempre levando a idéia de que “Belém não está preparada para receber o FSM” ou “Os movimentos sociais não estão conseguindo comunicar o que é o Fórum” ou “Belém vai ter um grande encontro turístico”. Ou seja, além da dificuldade de conseguir espaço, temos todo um trabalho de desconstrução a realizar, sempre.

Ibase – Acredita que o FSM 2009 vai possibilitar o fortalecimento dos movimentos sociais e das ONGs da região?

Ilma – Sim, e isso já está acontecendo desde o processo de construção do Fórum. Não sei como está a situação das ONGs pelo Brasil, mas aqui na Amazônia estamos passando por problemas financeiros muito sérios e também políticos, com dificuldade de construção de uma bandeira de luta que seja capaz de mudar essa situação de degradação da Amazônia. O FSM veio nos mostrar que temos essa força para mudar, que temos as ferramentas para fazer isso e dispomos das informações necessárias para isso. Principalmente, na área da comunicação, que é uma estratégia fundamental para essa transformação.

Ibase – Como será o funcionamento do Laboratório durante o FSM?

Ilma - Estamos concentrados na Faculdade de Comunicação, a Facom, dentro da Universidade Federal do PA, UFPA. Reunimos todos os instrumentos possíveis, rádios, câmeras, ilhas de edição, vamos utilizar a imprensa escrita, a fotografia, enfim, pretendemos fazer uma cobertura das atividades do FSM 2009 de forma compartilhada. Ao mesmo tempo, queremos fortalecer os debates sobre o próprio processo de comunicação na Amazônia

admin

Nota - SOS Amazônia

De Belém

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A Amazônia pede socorro. E mais de mil participantes que formaram, ontem, na Universidade Federal do Pará, a faixa humana com a mensagem “SOS Amazônia”, também. A iniciativa organizada por líderes indígenas de nove países chamou a atenção de quem passou por ali e repercutiu na imprensa local e mundial.

Para eles a Amazônia não pode chegar ao que chamam de “ponto crucial”. Devastação, descaso e falta de investimento público podem acelerar um processo de destruição que pode começar, segundo cientistas, em um prazo de 10 a 20 anos.

Fotos: Samuel Tosta

De Belém
Colaborou Diego Santos

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Debaixo de muita chuva, a famosa chuva das tardes de Belém, cerca de 80 mil pessoas compareceram à marcha de abertura do Fórum Social Mundial. Os(as) participantes – representantes da sociedade civil organizada, militantes, estudantes e integrantes de movimentos sociais de mais de 125 países – marcharam pelas principais avenidas da cidade até o ponto final do evento.

Mesmo antes do início, o movimento já era intenso na Estação das Docas, ponto turístico da cidade próximo ao início da Marcha, e militantes aproveitaram para apresentar atividades que acontecerão durante o Fórum. Africanos fizeram a transferência simbólica de território, já que a última edição foi realizada no Quênia.

Manoela Garja, do México, cantava junto com um grupo de pessoas de diversos países ao lado de um imenso boneco trazido da Índia para divulgar o Índice do Orçamento Participativo. “Nosso objetivo é mostrar para a população que o dinheiro do governo é do povo e, portanto, deve ser gasto com suas necessidades”, argumenta Manoela.

Durante o percurso na Avenida Presidente Vargas, a música dava o tom da caminhada que seguiu cheia de manifestações e apresentações culturais, além de gritos organizados. Os(as) habitantes da cidade não perderam nem um minuto da mobilização e foram para as janelas e portas de lojas conferir. Para Rodrigo Cruz, 20 anos, morador de Belém, o principal benefício de um evento como este é “semear a consciência de um novo mundo possível em cada pessoa” comenta.

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A mistura de cores e povos marcou as ruas da cidade e mais de 150 representantes de povos indígenas faziam sucesso por onde passavam. Alice Régis, 19 anos, ficou encantada em vê-los tão de perto: “É emocionante estar aqui perto dos índios que muitas esquecemos”.

Para marinheiros de primeira viagem, a marcha é deslumbrante e é responsável por grandes momentos para serem guardados na memória. Mário Jorge Maia, 49 anos, veio ao Fórum pela primeira vez e está animado com a possibilidade de debater temas que podem mudar a sociedade. “É muito importante poder discutir temas como os que serão apresentados aqui, melhor ainda é estar aqui”, vibra.

Sandra Magalhães é de Fortaleza e participou de todas as edições do Fórum, exceto a realizada no Quênia. Integrante do Fórum Brasileiro de Economia Solidária, acredita que o Fórum é uma oportunidade única de trocar experiências com outros povos, além de aprofundar as discussões de outros modelos de sociedade e de economia.

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As quase quatro horas de marcha não pararam os(as) participantes, que ainda ficaram para os shows e demonstrações culturais apresentados no palco montado na Praça do Operário. A expectativa é de que cerca de 30 mil pessoas circulem diariamente nos locais de eventos do FSM.

Fotos: Samuel Tosta