Jan 30th, 2009
“Lugar de mulher é na política”
De Belém
Ana Bittencourt e Diego Santos
Essas palavras de ordem compõem uma das centenas de camisetas-ativistas à venda no território do FSM 2009, em Belém. O slogan é mais que apropriado, especialmente nestes dias em que as universidades federal e rural (UFPA e Ufra), que abrigam o evento, se transformaram em verdadeiro celeiro de discussões e propostas sobre mulheres e espaços de poder. Na quinta, dia 29, o debate “A participação da mulher na política, promovido pela Fundacão Perseu Abramo, reuniu cerca de 1.500 pessoas na Tenda Cuba 50 anos, na UFPA.
Hoje, sexta, o tema continuou em foco, desta vez na Ufra, com a realização de dois seminários: pela manhã, Democratizar a democracia! As mulheres na reforma política, quando foi enfatizado o papel da reforma política para a igualdade de oportunidades entre mulheres e homens; à tarde, foi lançada a campanha “Mulheres donas da própria vida – Viver sem violência, direito das mulheres do campo e da floresta”.
A atividade foi uma proposta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a campanha está sendo organizada pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e Fórum Nacional pelo Enfrentamento da Violência contra as Mulheres do Campo e da Floresta . Visa evitar e combater a violência contra mulheres do campo no Brasil. Segundo informações da Seretaria Especial de Políticas para a Mulher (SPM), a iniciativa faz parte de um projeto de educação popular pela não-violência e pretende realizar ações educativas que ajudem a formar uma ampla rede de solidariedade entre as mulheres das cidades e as do campo e da floresta pelo fim da violência.
Todos os eventos contaram com a presença da ministra Nilcéia Freire, da SPM. O de quinta teve, também, a presença da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil da Presidência da República; da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa,; da senadora Fátima Cleide e da secretária Nacional de Mulheres do PT, Laisy Morière.
Um destaque foi a palestra da ministra Nilcéia que, mesmo em tempo reduzido, empolgou a numerosa platéia: “Quando uma mulher entra para a política, muda a mulher; quando várias entram, muda a política. É por meio da política que trilhamos os caminhos do poder”, enfatizou.
A ministra lembrou que nossa democracia tem um déficit de representação e ressaltou sua preocupação com a proposta de reforma política em curso no Congresso Nacional. “Não podemos fazer uma reforma cosmética, mas que permita o aprofundamento da democracia. No caso de optarmos pelo sistema de listas ordenadas nas eleições, que essas sejam por sexo, que haja financiamento para todas as campanhas e cotas nos espaços de poder.”
Apontando para 2010 e para a possibilidade de termos mulheres concorrendo às eleições presidenciais no Brasil, Nilcéia Freire citou como exemplo positivo a eleição de
Michelle Bachelet no Chile: “Quando Michelle foi eleita, houve uma grande discussão dentro e fora do país sobre a importância disso para as mulheres em todo o mundo. Ainda mais considerando que o Chile é um país conservador que, até recentemente, não havia sequer aprovado a lei que permite o divórcio. Feliz foi o povo chileno que não deixou de eleger Michelle por ela ser mulher”, afirmou.
A ministra adiantou que mulheres, poder e democracia será o tema central das comemorações do próximo Dia Internacional da Mulher no Brasil e conclamou a platéia a refletir sobre a seguinte imagem ideal: um triângulo onde um dos lados represente mais poder para as mulheres, o outro represente mais autonomia e o último, menos violência.
A palestra da ministra Dilma Rousseff foi também muito esperada pelo público, que a saldou com palavras de ordem sobre sua provável candidatura à Presidência da República em 2010. A ministra lembrou sua trajetória de militante a partir do golpe militar de 1964, os prejuízos causados por esse período obscuro de nossa história e a necessidade de construção da democracia participativa em nosso país desde então.
“A ditadura, além de ter sido um período de repressão e prisões, de ausência de direitos, introduziu no Brasil os rebaixamentos salariais, a tecnocracia, submetendo os rumos do país às exigências dos interesses internacionais. O país cresceu, mas excluindo boa parte dos brasileiros de seus direitos mais básicos. A minha geração foi afastada da política, tivemos que ir para o subterrâneo da luta política”, lembrou.
Dilma enfatizou ainda a importância do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a população brasileira e para o governo. “Muitos querem que o PAC seja só uma lista de obras. Na verdade, ele é um plano de integração de regiões excluídas que não tiveram os benefícios do crescimento. É um projeto político para as pessoas destituídas que modificou a nossa visão de mundo”, exclamou.
A ministra apontou a atuação das mulheres na política como fundamental para a implantação de um novo modelo de desenvolvimento para o país que, na sua visão, está sendo encaminhado pelo governo Lula:”Nós, mulheres, participamos desse processo como sindicalistas, lideranças estudantis, como aquelas que votam pela primeira vez ou são votadas”, disse. Na sua opinião, a presença, bem como a emancipação das mulheres nos espaços de poder é uma questão central para o fortalecimento da democracia.
Entre as prioridades deste governo, Dilma apontou a preservação da Amazônia – “Essa questão não é apenas um ponto no programa de governo, é elementar e estratégico para a constituição do Brasil como nação. Na Amazônia, está parte muito importante desse novo modelo de desenvolvimento que queremos. É uma riqueza que o Brasil tem de preservar de acordo com sua lógica, é fundamental para embasar nosso próprio conceito como nação”.
Sobre a proposta de reforma política apresentada pelas mulheres, a ministra também defendeu o sistema de listas fechadas e o financiamento público de campanhas – “A democracia depende também de partidos políticos fortalecidos. Com essa reforma política, vamos modernizar o país onde ainda há atraso”, afirmou.
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