Arquivo de Janeiro de 2009

De Belém
Ana Bittencourt

Nessa quarta, 28, cerca de 700 representantes de organizações ligadas à defesa do meio ambiente, dos direitos humanos e de novos modelos de desenvolvimento para o planeta estiveram reunidos(as) na Universidade Federal Rural da Amazônia, em Belém. Foi uma das atividades mais concorridas deste FSM 2009, que dedicou um dia inteiro de debates sobre a região Pan-amazônica. O seminário internacional “Justiça nos Trilhos – Campanha em Carajás, no Brasil e no mundo” enfocou os impactos ambientais e socioeconômicos causados pela empresa brasileira Vale do Rio Doce, aqui e em outros países, e discutiu estratégias de enfrentamento por parte da sociedade.

Segundo informações apresentadas durante o evento, o Brasil possui a quinta maior reserva de minério de ferro do planeta, que está sendo aniquilada pela Vale. Apesar de lucrar mais de R$ 20 bilhões por ano, a empresa mantém um quadro bastante reduzido de funcionários(as), utilizando-se de mão-de-obra barata e terceirizada. Seu trem leva minério de Carajás, PA, para o porto de Itaqui, em São Luís, MA, e atropela, no mínimo, uma pessoa por mês e diversos animais.

Além de destruir o meio ambiente e violar direitos humanos e trabalhistas recorrentemente, a empresa foi apontada como responsável pela implantação de um modelo de desenvolvimento devastador, cuja única meta é gerar cada vez mais lucro para seus acionistas.

Confira, a seguir, a entrevista com um dos coordenadores da campanha Justiça nos Trilhos, o italiano Dário Bossi. Criada em 2007, a iniciativa conta com o apoio de várias organizações, entre as quais o Ibase. Outras informações podem ser obtidas em www.justicanostrilhos.org.br

Ibase – Quais os objetivos da campanha Justiça nos Trilhos?

Dário – Queremos conscientizar as populações que vivem nos municípios onde os trilhos da Vale passam, mostrando as ações possíveis de enfrentamento contra a empresa. A curto prazo, são reações pontuais, locais, particularmente na área da denúncia, da ação civil pública, da busca de indenizações, da luta pela averiguação de compensações ambientais etc. Temos também um objetivo político, mais a longo prazo – a criação de um observatório internacional sobre a Vale, um mecanismo de controle social e, ainda, a volta do Fundo de Desenvolvimento que a empresa mantinha antes de ser privatizada.

Ibase – Qual a importância desse Fundo?

Dário – Até a privatização da empresa, o Fundo recebia 8% do lucro líquido da Vale para ser investido em projetos sociais. Hoje, esse percentual caiu para 1% e não vem sendo bem aplicado pelos municípios, vem sendo utilizado de cima para baixo, de forma a controlar os movimentos de base porque amarra as mãos de políticos e de movimentos que acabam dependendo desse financiamento.

Ibase – E como seria a nova proposta?

Dário - Nosso projeto de fundo de desenvolvimento participativo vai obrigar a Vale a partilhar, a cada ano, uma parte fixa do seu lucro, o que nos permitirá - depois de estudar em conjunto com conselhos participativos, sociedade civil e administrações públicas – definir formas de como investir esse dinheiro. Esta é a única maneira de obrigar a Vale a deixar o conveniente papel de benfeitora da situação, e assumir que essa partilha é um dever da empresa e é um direito do povo decidir como investir o montante.

Ibase – Quais tipos de iniciativas a campanha realiza?

Dário – São bem variadas. Recentemente, realizamos uma pesquisa sociológica em quatro municípios cortados pela ferrovia. Como resultado, produzimos uma cartilha sobre os direitos dessas populações e a responsabilidade social da empresa ao longo dos trilhos. A publicação será distribuída este ano. Essa pesquisa está também servindo como base para a realização de uma série de seminários, como este aqui. Já organizamos encontros em Açailândia, Muricicuçu, Bom Jesus das Servas, Belém e São Luís. Os próximos serão em Santa Inês, Alto Alegre e Marabá. Nossa intenção é, aos poucos, construir alianças com as lideranças locais, as bases. Aqui no Fórum, fizemos questão também de convidar as bases, representantes do povo que vive em municípios ao longo dos trilhos.

Ibase – A Vale está presente em muitos países?

Dário – Sim, só para citar alguns, ela está no Canadá, no Chile, no Peru e no Equador, na África, principalmente em Mocambique, nas Filipinas, Indonésia, Nova Caledônia. Há também empresas ligadas à Vale em países da Europa, como Alemanha, Itália, Inglaterra. E ainda, ela mantém uma exportação de minério muito forte em China, Estados Unidos, Holanda e Alemanha.

Ibase – Quais os prejuízos mais graves em relação ao meio ambiente causados pela empresa?

Dário – Posso falar mais sobre a região amazônica, que conheço melhor. Duas imagens retratam bem a situação – uma são as veias abertas da América Latina, como disse Eduardo Galeano. Não é tanto pelo efeito direto, mas pelo que a Vale não está fazendo, está só saqueando. Por exemplo, 95% do ferro que extrai de Carajás, que é um ferro preciosíssimo, o melhor ferro do mundo por ter um teor de minério de 65%, está saindo sem nenhum tipo de trabalho, sem nenhuma verticalização da produção. Significa que a maior parte do lucro entra nos bolsos da Vale e quase nada vai para as populações. Assim, o primeiro dano causado pela Vale é o não fazer.

Ibase – E o que ela faz?

Dário – Esta é a outra imagem – a Vale é como uma mãe que em vez de alimentar um ciclo de vida, gera um ciclo de morte, ambiental e social. É o ciclo da mineração, da siderurgia, da produção de aço e da exportação. Esse ciclo alimenta siderúrgicas, temos 14 siderúrgicas só em Carajás. Em Açailândia, temos cinco siderúrgicas ativas. Ao todo, elas têm 14 autofornos. Só para se ter uma ideia, um autoforno consome, por dia, 15 caçambas, daquelas de caminhão, de carvão e 40 vagões de minério. Atrás do carvão, tem o desmatamento. Em Açailândia, temos siderúrgicas que trabalham exclusivamente com carvão de mata virgem. Outras começaram o plantio de eucalipto, que traz um outro problema, a monocultura intensiva. Essa monocultura está praticamente arrasando com qualquer tipo de alternativa de produção nessa região. Alguns pequenos agricultores tentam resistir, mas parecem um Quixote em meio a um sistema avassalador.

Ibase – E dá certo?

Dário – Em geral, eles resistem, tentam não vender as suas propriedades, que acabam cercadas pelo eucalipto. Como se sabe, o eucalipto suga muita água e, aos poucos, prejudica os rios e impõe limites à produção agrícola, além de uma condenação definitiva de nossas terras à monocultura. O eucalipto precisa de muita água, de muito adubo químico, são espécies geneticamente modificadas. E o problema maior é que a raiz do eucalipto desce tão fundo que depois vai ficar muito caro e complicado tirar essas raízes do terreno para outro tipo de cultivo. Isso sem falar das folhas do eucalipto, que têm um teor ácido muito forte e acabam criando muita acidez no solo. Tanto assim que o único animal no mundo que come essas folhas é o coala, um animal australiano. A Vale está condenando todas essas regiões onde planta eucalipto, como Carajás e Marabá, a ser um grande deserto verde.

Ibase – E em relação às violações aos direitos humanos?

Dário – A principal no corredor dos trilhos são os atropelamentos. O trem da Vale mata, pelo menos, uma pessoa por mês porque não tem proteções nem passagens de nível. Além dos atropelamentos de pessoas, há também os atropelamentos de animais, que às vezes são um dos poucos recursos de sustento de pequenos produtores. O pior é pensar que não há nenhum tipo de indenização. Só recentemente, a Vale se deu conta de que era necessário consertar o dano e resolveu simplesmente indenizar as famílias comprando caixões. Ou seja, ela faz o serviço completo, mata e enterra, esse é o papel da Vale em nossa região.

Ibase – Quanto aos direitos trabalhistas, eles são respeitados pela companhia?

Dário – Só na região de Paraupebas, onde existem minas de carvão, há 8 mil processos trabalhistas nas varas judicárias, só para se ter uma idéia da situação. Além disso, mais de 60% dos trabalhadores são terceirizados, o que torna bem mais difĩcil qualquer tipo de controle com relação ao cumprimento dos direitos trabalhistas.

Ibase- Ainda há o problema do trabalho escravo, certo?

Dário – Sim, isso faz parte do ciclo das siderúrgicas e tudo isso está acabando com a nossa região. O Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Açailândia continua encontrando muitos trabalhadores escravos em carvoarias que, todos sabemos, são o primeiro elo da grande cadeia que depois acaba chegando ao ferro, ao aço etc.

Ibase - Quem coordena a campanha?

Dário – Várias entidades nacionais e internacionais – Missionários Combonianos Brasil Nordeste, Fórum Reage São Luís, Fórum Carajás, Sociedade Maranhense dos Direitos Humanos, Cáritas, CUT e o Sindicato dos Ferroviários Maranhão-Tocantins. Essas foram as primeiras entidades que se uniram a partir de uma série de lutas populares fragmentadas e da experiência do Fórum de Carajás, mais antiga, que andava enfraquecida.

Ibase – E quando foi criada?

Dário – Desde o final de 2007. Depois, muitos outros parceiros significativos se juntaram à iniciativa, entre os quais Ibase, Rede Brasileira de Justiça Ambiental, Articulação Siderurgia, Grupo de Trabalho sobre Racismo Ambiental, Movimento pelas Serras e Águas de Minas, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá, Associação Juízes para a Democracia, as Dioceses de Imperatriz e de Viana, que são atravessadas pela ferrovia, e alguns professores e estagiários, tanto nas áreas de Sociologia e Direito, que nos auxiliam em pesquisas.

Ibase – Quem quiser participar diretamente da campanha, deve fazer o quê?

Dário – As pessoas podem acessar o nosso site, para conhecer melhor o trabalho. Além disso, há várias outras formas de participar, como denunciar, levantar informações que nos ajudem a entender o que está acontecendo nos vários lugares onde a Vale atua. Estudantes universitários, principalmente nas áreas do Direito, da Sociologia e do Meio Ambiente, podem nos apoiar com seus conhecimentos. Além disso, estamos precisando muito do apoio de comunicadores para divulgar essas idéias, produzir documentários. Estamos também buscando voluntários que possam circular entre os povoados para apresentar palestras sobre educação popular. Enfim, há muito o que fazer, é só nos procurar.

De Belém
Ana Bittencourt

Há três semanas, está funcionando em Belém o Laboratório de Informação Compartilhada, iniciativa que congrega as principais representações de movimentos sociais e ONGS da Amazônia. Entre várias produções, o Laboratório criou dez documentários sobre os grandes temas que serão destaque neste FSM, e estão disponíveis em vários sites, como Youtube e WSFTV. “Com esse Laboratório, conseguimos trabalhar a informação de outra forma, produzindo uma contra-informação para tentar desconstruir o que vem sendo veiculado sobre o FSM, erroneamente, pelos meios de comunicação de massa”, explica a coordenadora do Centro de Estudos e Práticas de Educação Popular (Cepepo), Ilma Bittencourt, que integra o Grupo de Facilitação e o Grupo de Comunicação do FSM aqui em Belém.

Ibase – Qual foi o papel do Cepepo na organização do FSM 2009?

Ilma – Quando soubemos que o Fórum seria em Belém, a grande dificuldade foi articular todas as entidades em torno dessa construção, focando não apenas na questão da organização, mas também da logística. Por isso, organizamos, em 2007, o Grupo de Facilitação, formado por diversas entidades nacionais e amazônicas, e vários Grupos de Trabalho: de Economia Solidária, Juventude, Interreligioso, Cultura, Metodologia, Mobilização e de Comunicação, do qual o Cepepo ficou responsável.

Ibase – Quem integra o GT de Comunicação e como funciona?

Ilma - Estudantes de Comunicação, jornalistas e representantes de várias organizações da área. Para nós, da Amazônia, a principal necessidade era discutir as novas tecnologias. E também o desafio de pensar a comunicação não como um evento dentro do Fórum, mas como uma forma de fortalecer os movimentos sociais amazônicos, apropriando-se, para isso, dessas novas tecnologias. Aqui na Amazônia, a questão da tecnologia da informação é muito complicada.

Ibase – E qual foi o resultado desse GT?

Ilma – Criamos, na sede do Cepepo, um Laboratório de Informação Compartilhada, que começou a funcionar há três semanas. Integram a iniciativa os mais representativos movimentos sociais da Amazônia, como de indígenas, de jovens, de negros, de mulheres, em defesa da terra. Nosso objetivo é pautar os grandes temas do FSM. O Laboratório ofereceu a esses representantes várias oficinas de capacitação nas novas tecnologias, como produção de vídeo e roteiro para documentários, por exemplo. Produzimos cerca de 10 documentários de curta duração, de 3 a 5 minutos, no máximo. Esse trabalho está disponível na internet, como no Youtube, no site da Ciranda da Informação do FSM e no WSFTV, também vinculado ao Fórum.

Ibase- E qual foi o retorno disso?

Ilma –Tivemos excelente impacto, o que foi uma surpresa, pois até então, a ferramenta Internet era uma estranha para a maioria desses movimentos, era um caminho ainda desconhecido que, principalmente com a ajuda dos jovens, conseguimos trilhar. Isso para nós é uma experiência muito interessante, passamos a compartilhar a comunicação de forma mais ampla. Passamos a interagir com o Laboratório de Conhecimentos Livres, com o Fórum de Rádios Comunitárias, entre outros. São pessoas de outras partes do Brasil e fora dele, que têm muito mais experiência do que nós, da Amazônia.

Ibase – O Cepepo existe desde quando?

Ilma – Desde 1980, nosso trabalho começou associado à luta pela moradia. Prestávamos assessoria aos movimentos sociais contando, para isso, com ferramentas de comunicação, como a fotografia. Foi a partir daí que percebemos a importância da comunicação como forma de ajudar a conscientizar essas pessoas a se enxergarem como protagonistas de suas lutas. Começamos a trabalhar com outras ferramentas, todas ligadas à imagem e ao áudio, como slides, vídeos, mas sempre com a intenção de que os próprios integrantes desses movimentos fossem capacitados para produzir seus materiais. O importante era que eles se apropriassem desse processo de construção, seja elaborar uma entrevista, usar uma câmera, produzir um documentário.

Ibase – Vocês já participaram de outras edições do Fórum? Qual o significado dessa participação para vocês?

Ilma – Não, é a primeira vez. Está sendo um grande ganho, pois o FSM amplia as possibilidades de compartilhar conhecimentos com outros movimentos sociais. É também uma oportunidade de aprofundar os debates sobre temas políticos que, em geral, aqui na Amazônia, não temos como levar adiante, por exemplo, a discussão sobre a TV Digital, sobre a inclusão digital.

Ibase – Qual a avaliação que você faz da cobertura da mídia comercial pré-FSM?

Ilma - Foi muito complicado, tivemos problemas muito sérios. A mídia alternativa é muito necessária e, ao mesmo tempo, infelizmente, não tem muito espaço aqui na Amazônia. A solução é ocuparmos os espaços que a imprensa comercial disponibiliza para nós, o que não é bom. Essa foi uma das principais discussões dentro do GT. Por exemplo, os grandes jornais comercias até vinculavam as matérias que produzíamos sobre o processo preparatório ao FSM, mas embaixo, havia um anúncio enorme da Vale da Rio Doce, empresa responsável pela maior parte da destruição ambiental na região, ou de uma mineradora. Por isso, em algumas situações, tivemos que abrir mão desses espaços, por não ter como conciliar a proposta do Fórum com a postura dos grandes veículos. Por exemplo, conseguimos um excelente espaço em um grande jornal sobre responsabilidade social, podíamos publicar nossas matérias, desde que não assinássemos. Na primeira edição que fizemos, embaixo da matéria sobre o FSM, veio um anúncio enorme sobre um encontro de mineração. Outra questão complicada foi a abordagem das reportagens feitas pela mídia comercial, sempre levando a idéia de que “Belém não está preparada para receber o FSM” ou “Os movimentos sociais não estão conseguindo comunicar o que é o Fórum” ou “Belém vai ter um grande encontro turístico”. Ou seja, além da dificuldade de conseguir espaço, temos todo um trabalho de desconstrução a realizar, sempre.

Ibase – Acredita que o FSM 2009 vai possibilitar o fortalecimento dos movimentos sociais e das ONGs da região?

Ilma – Sim, e isso já está acontecendo desde o processo de construção do Fórum. Não sei como está a situação das ONGs pelo Brasil, mas aqui na Amazônia estamos passando por problemas financeiros muito sérios e também políticos, com dificuldade de construção de uma bandeira de luta que seja capaz de mudar essa situação de degradação da Amazônia. O FSM veio nos mostrar que temos essa força para mudar, que temos as ferramentas para fazer isso e dispomos das informações necessárias para isso. Principalmente, na área da comunicação, que é uma estratégia fundamental para essa transformação.

Ibase – Como será o funcionamento do Laboratório durante o FSM?

Ilma - Estamos concentrados na Faculdade de Comunicação, a Facom, dentro da Universidade Federal do PA, UFPA. Reunimos todos os instrumentos possíveis, rádios, câmeras, ilhas de edição, vamos utilizar a imprensa escrita, a fotografia, enfim, pretendemos fazer uma cobertura das atividades do FSM 2009 de forma compartilhada. Ao mesmo tempo, queremos fortalecer os debates sobre o próprio processo de comunicação na Amazônia

admin

Nota - SOS Amazônia

De Belém

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A Amazônia pede socorro. E mais de mil participantes que formaram, ontem, na Universidade Federal do Pará, a faixa humana com a mensagem “SOS Amazônia”, também. A iniciativa organizada por líderes indígenas de nove países chamou a atenção de quem passou por ali e repercutiu na imprensa local e mundial.

Para eles a Amazônia não pode chegar ao que chamam de “ponto crucial”. Devastação, descaso e falta de investimento público podem acelerar um processo de destruição que pode começar, segundo cientistas, em um prazo de 10 a 20 anos.

Fotos: Samuel Tosta

De Belém
Colaborou Diego Santos

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Debaixo de muita chuva, a famosa chuva das tardes de Belém, cerca de 80 mil pessoas compareceram à marcha de abertura do Fórum Social Mundial. Os(as) participantes – representantes da sociedade civil organizada, militantes, estudantes e integrantes de movimentos sociais de mais de 125 países – marcharam pelas principais avenidas da cidade até o ponto final do evento.

Mesmo antes do início, o movimento já era intenso na Estação das Docas, ponto turístico da cidade próximo ao início da Marcha, e militantes aproveitaram para apresentar atividades que acontecerão durante o Fórum. Africanos fizeram a transferência simbólica de território, já que a última edição foi realizada no Quênia.

Manoela Garja, do México, cantava junto com um grupo de pessoas de diversos países ao lado de um imenso boneco trazido da Índia para divulgar o Índice do Orçamento Participativo. “Nosso objetivo é mostrar para a população que o dinheiro do governo é do povo e, portanto, deve ser gasto com suas necessidades”, argumenta Manoela.

Durante o percurso na Avenida Presidente Vargas, a música dava o tom da caminhada que seguiu cheia de manifestações e apresentações culturais, além de gritos organizados. Os(as) habitantes da cidade não perderam nem um minuto da mobilização e foram para as janelas e portas de lojas conferir. Para Rodrigo Cruz, 20 anos, morador de Belém, o principal benefício de um evento como este é “semear a consciência de um novo mundo possível em cada pessoa” comenta.

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A mistura de cores e povos marcou as ruas da cidade e mais de 150 representantes de povos indígenas faziam sucesso por onde passavam. Alice Régis, 19 anos, ficou encantada em vê-los tão de perto: “É emocionante estar aqui perto dos índios que muitas esquecemos”.

Para marinheiros de primeira viagem, a marcha é deslumbrante e é responsável por grandes momentos para serem guardados na memória. Mário Jorge Maia, 49 anos, veio ao Fórum pela primeira vez e está animado com a possibilidade de debater temas que podem mudar a sociedade. “É muito importante poder discutir temas como os que serão apresentados aqui, melhor ainda é estar aqui”, vibra.

Sandra Magalhães é de Fortaleza e participou de todas as edições do Fórum, exceto a realizada no Quênia. Integrante do Fórum Brasileiro de Economia Solidária, acredita que o Fórum é uma oportunidade única de trocar experiências com outros povos, além de aprofundar as discussões de outros modelos de sociedade e de economia.

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As quase quatro horas de marcha não pararam os(as) participantes, que ainda ficaram para os shows e demonstrações culturais apresentados no palco montado na Praça do Operário. A expectativa é de que cerca de 30 mil pessoas circulem diariamente nos locais de eventos do FSM.

Fotos: Samuel Tosta

Cândido Grzybowski*

Obama tomou posse como presidente dos EUA há exatamente uma semana do Fórum Social Mundial 2009, em Belém. Olho este fato histórico com a perspectiva de brasileiro, de dirigente de uma organização de cidadania ativa e de pessoa engajada no processo FSM. Isto num contexto de plena crise mundial e de desafio de criar novas bases de organização econômica e de poder.

Um primeiro fato a registrar é a grande esperança de mudança que Obama representa para os(as) próprios(as) norteamericanos(as). Tendo gerado um verdadeiro movimento cidadão durante o processo eleitoral, Obama simboliza a possibilidade de revitalização democrática da sociedade. Ela foi agastada pela hegemonia conservadora, com seu exacerbado individualismo e desprezo dos valores públicos e da política, com seu fundamentalismo religioso e beligerante, de submissão pela força, mesmo ilegal, de adversários(as) e diferentes, de não-respeito ao multilateralismo.

Em tal meio, Obama soube produzir um novo clima político e cultural. O Yes, we can! tornou-se uma expressão cívica de poder e orgulho cidadão da multifacetada sociedade dos EUA. Com base no movimento, Obama conseguiu galvanizar os mais diversos setores, em particular a juventude, e chegar à vitória eleitoral. As expectativas são enormes. A questão é saber se Obama, como a maioria dos governantes, vai se submeter sobretudo à lógica e dinâmica do poder institucionalizado em Washington ou se buscará inspiração e força no movimento que o elegeu. Mais, o movimento vai ser capaz de se manter vivo e pressionar Obama e as poderosas e esclerosadas instituições de poder?

Estas são questões que debateremos no FSM 2009 com os mais de mil ativistas e intelectuais norteamericanos(as) esperados(as). Ainda em julho de 2007, no Fórum Social dos EUA, em Atlanta, o lema foi “Outra América é possível e necessária”. Já era possível ver um outro EUA mostrando a sua vitalidade política. Isto na terra de Martin Luther King, outra referência de Obama.

Obama integra uma sociedade que 50 anos atrás não reconhecia direitos civis iguais para brancos(as) e negros(as). O movimento liderado por Martin Luther King, do final dos anos 1950 aos anos 1960 do século passado, trouxe ao centro do debate democrático a igualdade de direitos na diversidade e, mais, a necessidade dos EUA reconhecerem a sua própria composição diversa como base e patrimônio da nação.

Hoje, num país ainda mais diverso, dado que é um dos principais destinos dos migrantes da globalização, pela primeira vez um negro chega à Presidência. Isto é simbólico para a cidadania e a política nos próprios EUA. Mas vale para todo mundo, especialmente para as pessoas que se identificam com o apelo do FSM em termos de valorização da diversidade sociocultural como base de uma nova cultura política de inclusão universal, sem discriminações ou racismos. Não é por nada que o mundo todo olha para Obama, por fora do sistema elitista dominante, como alguém que chega lá.

Para além destes aspectos que movem mentes e corações, é preciso ver Obama como presidente da, ainda, maior potência econômica e militar do planeta. Na verdade, um grande urso, muito perigoso porque bastante ferido. O furacão da crise está no próprio coração da economia norteamericana. A conjuntura é extremamente difícil, pois com a ruína da economia cassino, é a economia real que aparece totalmente insustentável, produtivista e consumista de recursos naturais e poluidora do meio ambiente, injusta em termos sociais e ambientais. Na frente militar, Obama herda duas desgastantes guerras da era Bush.

Obama e equipe são desafiados a demonstrar muita ousadia e uma radical mudança de rumo. Talvez aí reside o núcleo mais difícil das expectativas com as quais a nova administração deve lidar para não reverter o bom momento político cultural. Aliás, o mundo todo está de olho nos EUA, os líderes políticos das nações poderosas, por estarem perdidos, e a cidadania planetária, por ver uma fresta de oportunidades de mudança pregada e almejada.

Novamente, esta é uma questão vital para o FSM. Anunciamos, desde o auge da globalização do livre mercado, comandada pelas grandes corporações, que “outro mundo é possível”. Contra o pensamento único predominante, nos opomos à absoluta privatização de tudo e propomos uma publicização e repolitização da vida e da economia, com maior poder de regulação dos mercados e das finanças pelos Estados. Defendemos a busca de uma pluralidade de modelos e formas de organização econômica, sustentáveis no acesso e uso dos bens comuns naturais, diversos como os territórios e as culturas que nos dão identidade, participativos e voltados prioritariamente a satisfazer necessidades e desejos de bem viver dos povos, que promovam a justiça social e ambiental. Nos opomos frontalmente à lógica do terror e da guerra e à crescente militarização e violência nas relações, no interior e entre países.

No discurso de posse há sinais de uma nova agenda para o governo dos EUA. O fundamental é reconhecer que uma outra economia, uma outra sociedade e uma outra política norteamericana são uma necessidade para o mundo de hoje. Talvez tenhamos algo a fazer para que isto aconteça: ficar mais atentos(as) e prestar solidariedade ao poderoso movimento cidadão que gerou Obama. A administração em Washington, antes que engula Obama, precisa saber que também estamos atentos(as) e vamos cobrar.

*Sociólogo, diretor do Ibase.

Publicado em 23/01/2009 no Portal Ibase.

admin

Panorama FSM

Diego Santos

Outro mundo possível. É o que os(as) participantes esperam da 9ª edição do Fórum Social Mundial que este ano acontece em Belém do Pará, norte do país, de 27 de janeiro a 1º de fevereiro. São esperados(as) mais de 80 mil participantes vindos(as) de todas as partes do Brasil e do mundo.

Em 2001, quando o primeiro Fórum foi realizado, em Porto Alegre, ficou evidente a capacidade de mobilização que a sociedade civil pode adquirir quando se organiza a partir de novas formas de ação política, caracterizadas pela valorização da diversidade e da co-responsabilidade.

Agora, Belém “se transforma em um instigante laboratório político, ao abrigar o FSM, o maior evento da sociedade civil organizada,” segundo Cândido Grzybowski, diretor do Ibase. O FSM possibilitará a discussão da problemática amazônica com o desafio, sobretudo, de pensar alternativas ao desenvolvimento social e econômico.

O Fórum Social Mundial, como espaço aberto, propicia e estimula exatamente este tipo de atitude: o diálogo franco entre as múltiplas organizações da sociedade civil, mas também chefes de Estado e organismos multilaterais. Por tudo isso, “o Fórum na Amazônia, neste momento da História mundial, é bem vindo e inspirador”, garante o diretor do Ibase.

Em 2009, há muitas novidades. As organizações poderão participar à distância, realizando atividades em seus locais que podem ter interconexão com as realizadas em Belém, por meio de transmissão via internet, TV e rádio. As inscrições para participar pelo Belém Expandida, quando disponíveis, estarão no site do FSM.

Outra opção é o WSFTV – um espaço aberto para a publicação de vídeos relacionados ao Fórum Social Mundial, respeitando a Carta de Princípios do FSM e o conceito de Creative Commons.

Cândido acredita na força dos desdobramentos advindos do FSM. “Nada impede que nos engajemos durante o evento Fórum, antes e depois dele, com quem estiver a fim, formando redes, definindo programas de reflexão e ação conjunta para avançar na produção de alternativas.”

Confira a lista de atividades do Ibase. Também já é possível conferir a lista de atividades do FSM 2009 com data e horário em que serão realizadas para isso basta acessar www.fsm2009amazonia.org.

Publicado em 09/01/2009.

admin

Acampamento da juventude

Da Redação colaborou Diego Santos

Janeiro, fevereiro, verão, férias. Palavras que não saem da cabeça de milhares de jovens de todo o Brasil e do mundo, que aproveitam esse período para conhecer novos lugares em busca de diversão e descanso. De 27 de janeiro a 1º de fevereiro, porém, mais de 20 mil jovens são esperados(as) em um acampamento bem diferente, o Acampamento Intercontinental da Juventude (AIJ), que será realizado durante a 9ª edição do Fórum Social Mundial em Belém do Pará, norte do Brasil.

O acampamento é realizado desde a primeira edição do Fórum Social Mundial, em 2001, e é responsável por abrir espaço para que a juventude dê voz às suas contribuições para a construção de um mundo melhor, como sugere o slogan do evento.

Luan Alves tem 21 anos e é integrante do GT de Comunicação do AIJ. Ele conta que a mobilização já toma conta de todo os estados do país, onde caravanas se organizam para participar do acampamento. “Já sabemos que há grupos vindos de todas as regiões, participando de outros congressos, culminando aqui no FSM”. Para ele, que participa pela primeira vez do Fórum, o evento é uma oportunidade única para a sua cidade, Belém, ter visibilidade mundial na organização de eventos de grande porte.

Kleber Albuquerque tem 25 anos. Vai pela primeira vez a uma edição do FSM. Sempre acompanhou de longe outras edições e tinha enorme desejo de participar. Este ano, deu para guardar uma “grana” e vai para Belém. O que o motiva? “O próprio slogan do Fórum me motiva, saber que posso contribuir politicamente para um outro mundo possível é muito bom”, responde o estudante de Turismo e Administração pública.

De acordo com o GT de comunicação do AIJ, haverá espaço na programação para grupos que não conseguiram inscrever suas atividades culturais a tempo. “Esses grupos terão a oportunidade de adquirir visibilidade e usufruir da estrutura de palco e som que o acampamento oferece”, diz Luan.

O acampamento prevê ainda uma programação bem especial que vai desde oficinas, seminários e exposições até shows e outros eventos. Algumas bandas bem conhecidas do cenário musical do Norte marcarão presença nos dias do evento.

Quanto à estrutura do acampamento, há espaço suficiente na Universidade Federal Rural do Pará para camping e todas as atividades acontecerão por lá. As 15 tendas armadas para o evento abrigarão as atividades. “É importante lembrar que as atividades acompanham os eixos do FSM e os participantes têm livre acesso aos eventos do Fórum”, ressalta Luan.

Quem estiver preocupado com as chuvas de Belém pode ficar tranquilo. Segundo Luan, “há um esforço da organização para garantir o conforto dos participantes e impedir que as dependências fiquem alagadas”, garante. Ele lembra também da importância de levar repelente, filtro solar e, claro, a barraca.

Para mais informações: www.acampamentodajuventude.wordpress.com.

Escambo organizado

Com todas as facilidades de comunicação da atualidade, a novidade deste Fórum Social Mundial vem da comunidade do evento no Orkut, site de relacionamentos. A organização de um escambo organizado está mobilizando participantes da comunidade.

Pessoas de todos os estados combinam o que levar como lembrança de seu estado para ter em troca presentes de outras partes do país e do mundo. Mayra Carvalho tem 28 anos e é estudante de serviço social. Vai levar para troca objetos autênticos do Piauí: “ artesanato, cachaças e ainda CD de uma cantora famosa da região”, conta.

O autor da idéia, Kleber Albuquerque, não imaginava que a iniciativa fosse dar tão certo. “No início, o tópico demorou a ter respostas, mas agora é um sucesso e já temos até que fazer lista para não esquecer ninguém”, garante. Para ele, o escambo é importante pois reflete o clima do próprio Fórum, “proporcionando as trocas culturais e integrando povos”.

Para participar do escambo basta acessar a comunidade do Orkut e combinar o quer ganhar ou levar.

Publicado em 16/01/2009 no Portal Ibase.

Cândido Grzybowski*

As cenas de mais uma guerra no conturbado território são chocantes. Elas invadem o nosso cotidiano e não dá para ficar indiferente. A emoção diante do sofrimento de tanta gente inocente não pode ser contida. Aquelas crianças que tiveram o direito de viver destruído tão cedo e deste modo! Mas o que fazer? Esquecer e ir levando a vida? Isto não é possível em um mundo onde, por consciência, visão e pelos meios que a tecnologia nos dá, começamos a sentir que somos, em nossa diversidade e diferença, parte da mesma humanidade. Sim, mesmo distantes geograficamente e sem sermos obrigados a buscar refúgio em Israel ou na Palestina, as bombas nos concernem e temos o dever cidadão de encará-las para reverter tal situação.

O drama dos povos judeu e palestino, com toda a sua tragédia, sintetiza de forma exemplar o que povos e grupos humanos enfrentam pelo mundo afora: como compartir o bem comum maior, o território e seus recursos naturais, de forma a que todos os seres humanos tenham lugar. Sempre que prevalece a lógica de conquista pelos mais fortes, de uso exclusivo de territórios para si, de acesso e uso de recursos finitos só para uns e de exclusão social de todos os outros, gera-se injustiça, destruição e morte. Isto marca a história da humanidade. Marcou a violenta conquista e colonização a partir do século 16 e a própria invenção do racismo que nos assola até hoje. Ainda hoje é este o sentido da maior parte das lutas, seja na nossa vasta Amazônia, seja em cidades como Rio, Johanesburgo, Mumbai, Paris ou Nova Orleans, não importa, seja no Líbano, Iraque, Afeganistão, Bolívia, Chechênia, antiga Iugoslávia, Ruanda, Somália.

De uma forma ou de outra, as condições naturais de viver e o direito à identidade sociocultural e ao reconhecimento político estão no centro de todas as lutas e disputas. Entre os fatores de maior dramaticidade da guerra entre Israel e Palestina estão a sua longa duração; a trágica história do povo judeu, culminando com o Holocausto na II Guerra Mundial; e a heroica resistência do povo palestino, a quem se nega o direito de ter direitos também.

A guerra, o terrorismo e a intolerância de parte a parte têm muito a ver com a liderança atual de Israel e com o fundamentalista Hamas. Os erros políticos acumulados com o fracasso em reconhecer um Estado Palestino devem ser creditados aos dois lados. Mas convenhamos, o cinismo e a lógica do mais forte que tomou conta da agenda política mundial, no rastro da globalização comandada por grandes corporações e sob a égide militar e guerreira dos Estados Unidos, são alimentados por um clima que extrapola a região. A arquitetura política mundial de fragilização do multilateralismo, com lideranças políticas fracas e confusas como Bush, dão lugar ao que temos neste início do século 21: o predomínio de uma lógica de terror e guerra. Neste quadro, será que nós mesmos não damos as costas ao drama de outros povos?

Como cidadão do planeta Terra, ativamente engajado no processo Fórum Social Mundial, afirmo e reafirmo que a situação não precisa ser assim, não pode continuar assim. A hora é de mudar. As múltiplas crises enfrentadas pela globalização trazem sofrimento, mas desestabilizam os pilares e, sobretudo, os valores do individualismo, do cinismo, da intolerância, do fundament
alismo, do terror e da guerra. A hora é de agir. Precisamos aproveitar o momento do FSM, em Belém, e a novidade de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos para cobrar de nossos dirigentes políticos e das instituições multilaterais um compromisso mais claro com a paz. Precisamos parar os falcões em Israel e na Palestina. As diferenças existem, mas, em vez de gerar guerra e destruição, podem ser politicamente transformadas em forças de construção de um mundo mais justo, humano, sustentável e democrático, onde todos os seres humanos tenham direito de viver.

*Sociólogo, diretor do Ibase.

Publicado em 16/1/2009 no Portal Ibase.

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