Cândido Grzybowski*

As cenas de mais uma guerra no conturbado território são chocantes. Elas invadem o nosso cotidiano e não dá para ficar indiferente. A emoção diante do sofrimento de tanta gente inocente não pode ser contida. Aquelas crianças que tiveram o direito de viver destruído tão cedo e deste modo! Mas o que fazer? Esquecer e ir levando a vida? Isto não é possível em um mundo onde, por consciência, visão e pelos meios que a tecnologia nos dá, começamos a sentir que somos, em nossa diversidade e diferença, parte da mesma humanidade. Sim, mesmo distantes geograficamente e sem sermos obrigados a buscar refúgio em Israel ou na Palestina, as bombas nos concernem e temos o dever cidadão de encará-las para reverter tal situação.

O drama dos povos judeu e palestino, com toda a sua tragédia, sintetiza de forma exemplar o que povos e grupos humanos enfrentam pelo mundo afora: como compartir o bem comum maior, o território e seus recursos naturais, de forma a que todos os seres humanos tenham lugar. Sempre que prevalece a lógica de conquista pelos mais fortes, de uso exclusivo de territórios para si, de acesso e uso de recursos finitos só para uns e de exclusão social de todos os outros, gera-se injustiça, destruição e morte. Isto marca a história da humanidade. Marcou a violenta conquista e colonização a partir do século 16 e a própria invenção do racismo que nos assola até hoje. Ainda hoje é este o sentido da maior parte das lutas, seja na nossa vasta Amazônia, seja em cidades como Rio, Johanesburgo, Mumbai, Paris ou Nova Orleans, não importa, seja no Líbano, Iraque, Afeganistão, Bolívia, Chechênia, antiga Iugoslávia, Ruanda, Somália.

De uma forma ou de outra, as condições naturais de viver e o direito à identidade sociocultural e ao reconhecimento político estão no centro de todas as lutas e disputas. Entre os fatores de maior dramaticidade da guerra entre Israel e Palestina estão a sua longa duração; a trágica história do povo judeu, culminando com o Holocausto na II Guerra Mundial; e a heroica resistência do povo palestino, a quem se nega o direito de ter direitos também.

A guerra, o terrorismo e a intolerância de parte a parte têm muito a ver com a liderança atual de Israel e com o fundamentalista Hamas. Os erros políticos acumulados com o fracasso em reconhecer um Estado Palestino devem ser creditados aos dois lados. Mas convenhamos, o cinismo e a lógica do mais forte que tomou conta da agenda política mundial, no rastro da globalização comandada por grandes corporações e sob a égide militar e guerreira dos Estados Unidos, são alimentados por um clima que extrapola a região. A arquitetura política mundial de fragilização do multilateralismo, com lideranças políticas fracas e confusas como Bush, dão lugar ao que temos neste início do século 21: o predomínio de uma lógica de terror e guerra. Neste quadro, será que nós mesmos não damos as costas ao drama de outros povos?

Como cidadão do planeta Terra, ativamente engajado no processo Fórum Social Mundial, afirmo e reafirmo que a situação não precisa ser assim, não pode continuar assim. A hora é de mudar. As múltiplas crises enfrentadas pela globalização trazem sofrimento, mas desestabilizam os pilares e, sobretudo, os valores do individualismo, do cinismo, da intolerância, do fundament
alismo, do terror e da guerra. A hora é de agir. Precisamos aproveitar o momento do FSM, em Belém, e a novidade de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos para cobrar de nossos dirigentes políticos e das instituições multilaterais um compromisso mais claro com a paz. Precisamos parar os falcões em Israel e na Palestina. As diferenças existem, mas, em vez de gerar guerra e destruição, podem ser politicamente transformadas em forças de construção de um mundo mais justo, humano, sustentável e democrático, onde todos os seres humanos tenham direito de viver.

*Sociólogo, diretor do Ibase.

Publicado em 16/1/2009 no Portal Ibase.

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